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Lidiya Litvyiak, a Rosa Branca de Stalingrado
Quando as forças nazistas invadiram a União
Soviética, na manhã de 22 de junho de 1941, o plano alemão codinominado
Operação Barbarosa, previa a aniquilação do Exército Vermelho e a queda do
governo comunista antes da chegada do inverno.
Hitler jogava a máquina de guerra alemão contra a
mais vasta nação do mundo, acreditando na tática do Blitzkrieger, que
havia sido vitoriosa nas campanhas anteriores, contra a Polônia e França. De
fato, no início, não houve razão para duvidar do sucesso, sendo que no primeiro
dia mais de 1.200 aviões russos foram destruídos, mas a extensão do território
soviético permitiu que o Exército Vermelho, mesmo sofrendo derrotas sucessivas,
conseguisse se reorganizar do choque inicial e começasse a impor feroz
resistência, que acabou por impedir a planejada vitória alemã. O inverno
chegou, e a União Soviética não caíra nem Moscou fora conquistada.
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O Mig-3 |
Do lado russo, passado o choque inicial, houve uma
mobilização humana e técnica sem precedentes. De linhas de montagem
improvisada, começaram a ser produzidos aviões, tanques, canhões e armas. Entre
os modelos produzidos estavam o Mig-3 e o LaGG-3, novos caças que
iriam substituir os obsoletos Polikarpovs. Além de aeronaves, a União Soviética
necessitava de pilotos, muitas vezes muito mais necessários do que os aviões, e
embora possuísse algumas milhares de pilotas, a Força Aérea Soviétiva resistiu
à idéia de enviá-las para a linha de frente. Somente com a pressão pessoal de
Marina Raskova, um mito da aviação russa, é que Stalin permitiu o envio de
pilotas para as unidades de combate, algumas indo para unidades mistas e outras
indo para três unidades totalmente femininas – o 586° Regimento de Caça, o 588°
Regimento de Aéreo e para o 587° Regimento de Bombardeiro.
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O LaGG-3 |
Assim, dentro da épica saga da resistência e,
depois, das vitórias russas contra as forças nazistas, houve a epopéia até hoje
pouco conhecida de cerca de 400 garotas russas muito jovens, que lutaram como
pilotas e tripulantes de caças, bombardeiros e outros aviões de guerra. Foram
as primeiras mulheres a servirem como aviadoras em combate, em toda a história,
e entre elas, uma se tornaria a maior ás de todos os tempos, uma verdadeira
lenda e símbolo de coragem e sacrifício. Seu nome era Lidiya Vladimirovna
Litvyiak, a Lyla (lírio em russo), mas os alemães aprenderam a teme-la como “A
Rosa Branca de Stalingrado”
Lidiya nasceu em Moscou no dia 18 de agosto de 1921,
e desde cedo mostrou-se apaixonada pela aviação, tendo solado aos 15 anos.
Graduou-se pela Escola Militar de Vôo de Kherson em 1940, tornando-se
instrutora de vôo, primeiro no Aeroclube de Kalinin e depois na Osoaviakhim
(Sociedade de Apóio à Defesa e Aviação). Estava para completar 20 anos quando
da invasão alemã e, como milhares de jovens russos, Lidiya imediatamente foi
voluntária para ir para o combate. Inicialmente os militares rejeitaram a idéia
de utilização de aviadoras na linha de frente, mas com a influência de Marina
Raskova, em abril de 1942, era ativada a primeira unidade exclusivamente
feminina, o 586° IAP, mas desde outubro de 1941 que já era realizado
treinamento de pilotas em Engels, sob a liderança de Raskova.

Sob a rígida disciplina militar soviética, o
temperamento rebelde de Lidiya começou a aparecer. A preparação das caçadoras
terminou em janeiro de 1942, e a unidade equipada com caças Yarkolev Yak-1,
foi enviada para combate na região de Saratov, onde uma de suas missões era
proteger a única ponte remanescente sobre o Rio Volga. Em setembro, as melhores
pilotas foram transferidas para o 437° IAP, que operava na região de
Stalingrado, sendo, entretanto, um regimento masculino. Os pilotos maldisseram
o comando por não lhes mandar pilotos verdadeiros para recompor as baixas, mas
Lidiya e suas amigas não demorariam a mudar a visão de seus companheiros.
Naquela fase da guerra as forças russas lutavam
ferozmente na defesa de Stalingrado contra o 6° Exército Alemão. Quando do
início do ataque em julho de 1942, os russos não possuíam mais de 80 velhos
caças I-15 e I-16 para proteger a cidade, mas logo tomaram
consciência da importância de Stalingrado, e em meados do segundo semestre a
defesa aérea foi reforçada com novíssimos caças Yak-1 e Yak-7 e
mais tarde com os Yak-9 e La-5. Para os alemães, a importância da
cidade, tanto estratégica quanto psicologicamente, logo ficou evidente também.
Assim, de modo similar aos combates em terra, a luta nos céus da cidade se
revestiu de uma violência e tenacidade, de ambos os lados, sem paralelo até
então.
Logo em sua segunda missão, no dia 13 de setembro,
Lidiya colheu sua primeira vitória, quando a formação em que voava composta de
quatro Yak-1 atacou uma força alemão muito superior, composta de
bombardeiros Ju-88 e de caças Me-109. Na luta, Lidiya abateu um
bombardeiro e um caça, este último, salvando a vida de sua colega Belyaeva, que
era perseguida pelo caça germânico.
À medida em que as forças terrestres alemães se
aproximavam da cidade, a luta aumentava e logo os infantes estavam se
enfrentando entre os prédios da cidade. Assim, muitas das missões de Lidiya
passaram a ser de escolta de aviões de ataque, que castigavam o avanço das
tropas alemães, sendo que, por exemplo, no dia 10 de outubro, ela voou cinco
missões de escolta. Pouco depois, ela seria transferida para o 296° IAP e em
fevereiro de 1943 seria promovida a Junior Lieutenant. Nessa altura
porém, a grande batalha já terminara, com vitória das forças soviéticas, da
qual os alemães nunca se recuperariam. Em novembro de 1942, depois de um contra
ataque fulminante, as tropas russas conseguiram cercar todo o 6° Exército e em
2 de fevereiro de 1943, os alemães se renderam.

Apesar dos combates incessantes, Lidiya ainda
encontrava tempo para suas vaidades. Do hospital arrumava água oxigenada para
clarear ainda mais seus já loiro cabelo e da seda de retalhos pára-quedas,
tingia-os de cores diferentes para usa-los como echarpe. Por causa de seu
apelido, que significava lírio em russo, mandou pintar um grande lírio branco
na fuselagem de sua aeronave, e por isso seus adversários da Luftwaffe
alcunharam sua aeronave de “A Rosa Branca de Stalingrado”.
No dia 22 de março de 1943, Lidiya decolou com
outros cinco caças de seu esquadrão para interceptar um grupo de Ju-88
que seguiam para atacar Rostov. No combate conseguiu derrubar um dos
bombardeiros, mas atacada por seis Me-109, foi obrigada a realizar pouso
forçado em território controlado pelos alemães, mas felizmente, antes que fosse
feita prisioneira, um Ilyushin IL-2 Shturmovik pousou no campo e a
resgatou. Ela só voltaria à ação em maio daquele ano, quando abateria mais um
caça Me-109.
Durante essas ações com o 296° IAP, Lidiya voava como ala do comandante
do esquadrão, Alexei Salomatin, ele próprio um ás com 12 vitórias individuais e
15 em grupo, e no meio da rotina dos combates, os dois acabarm se apaixonando,
ficando noivos. Mas a guerra não é gentil com os romances. No dia 21 de maio de
1943, Alexei e um piloto novato estavam realizando vôo de treinamento sobre a
base, quando a aeronave de Alexei caiu e ele veio a falecer. Depois deste
incidente, Lidiya só queria voar e combater desesperadamente. E foi isso que
fez até o fim da guerra.

O Il-2
Em julho, quando de uma missão de escolta, acabou
tendo seu caça atingido e sofreu ferimentos, mas contrariando ordens médicas
continuou combatendo. Foi abatida mais uma vez, sendo que escapou das tropas
alemães correndo á pé até as linhas russas. Em 18 de julho sofreria outro duro
golpe, quando sua amiga Budanova foi abatida em combate.
Mesmo com o Exército Vermelho na ofensiva e
acumulando vitórias sobre as forças alemães, a intensidade dos combates aéreos
diminuiu, pelo contrário. Em julho, quando da última grande ofensiva alemã no
leste, na Batalha de Kursk, a Luftwaffe perdeu cerca de 900 aeronaves
contra umas 600 dos russos. Os alemães em seus Me-109 e Fw-190 enfrentava caças
tão bons ou melhores que os seus, como os La-5FN e o Yak-9.
Em 1° agosto de 1943, Lidiya realizou quatro
missões, sendo que nesta última, em inferioridade numérica, seu avião foi
identificado e nada menos do que oito Me-109 vieram em seu encalço. Ela se
defendeu com agilidade e técnica, conseguindo abater dois oponentes, mas seu
caça acabou sendo atingido e Lidiya, mortalmente ferida fez pouso forçado perto
de Marinovka, na região de Donetsk. Morreu duas semanas depois, antes de
completar 22 anos.

A aeronave
de Lidiya
Mas a lenda não terminaria ali. Militares
desconhecidos enterraram seu corpo sob a asa de seu Yak. Mais tarde, quando os
restos da aeronave foram removidos, perdeu-se a localização de sua cova, que
assim permaneceu por 46 anos, ficando a aviadora registrada como”desaparecida
em combate” nos arquivos soviéticos, impedindo que recebesse postumamente a
maiôs condecoração do país, pelo qual lutara, a de Herói da União Soviética.
Somente no início dos anos 90 é que finalmente foi reencontrado seu corpo e o
então presidente soviético, Mikhail Gorbatchev, enfim outorgou-lhe a merecida
comenda em 5 de maio de 1990.
Com o fim da União Soviética, no dia 1° de outubro
de 1993, a maior de todas as pilotas de combate foi declarada Heroína da
Rússia.

Modelo do
Yak-1 de Lidiya
Adaptado da Revista ASAS – Ano I –
Número 4 – Dezembro 2001